Introdução
O relacionamento entre empresas e consumidores foi profundamente reconfigurado pela evolução da internet e pela consolidação do marketing digital, passando de uma lógica unidirecional e massificada para interações bidirecionais, personalizadas e contínuas ao longo de múltiplos pontos de contacto (Critec, 2026; Alghamdi et al., 2023). Esta transformação resulta da convergência entre novas tecnologias, modelos de negócio digitais e abordagens estratégicas que integram dados, automação e canais online de forma articulada (Professor Renato, 2025).
Evolução da Internet e Marketing Tradicional
A evolução da internet, da Web estática para ambientes interactivos e sociais, criou as condições técnicas para uma comunicação em rede, em tempo real, com escala global (Critec, 2026). Nas primeiras fases, o foco incidia sobretudo na presença institucional (sites informativos e e‑mail), reproduzindo online a lógica de difusão do marketing tradicional, centrada em meios de massa como televisão, rádio e imprensa (Professor Renato, 2025). Progressivamente, o desenvolvimento de plataformas de redes sociais, aplicações móveis e sistemas de automação permitiu que as interacções deixassem de ser esporádicas e passassem a ser contínuas, com feedback imediato e visibilidade pública (Redegal, 2024). Este contexto tornou a internet não apenas um canal adicional, mas a infraestrutura central das relações de marketing na economia digital (Alghamdi et al., 2023).
Transição para o Marketing Digital
A passagem do marketing tradicional ao marketing digital traduz‑se sobretudo na mudança de uma comunicação unidirecional para uma comunicação bidirecional e participativa (Agarwal, 2025). Enquanto o modelo tradicional assenta em campanhas de alcance massivo, com baixa possibilidade de segmentação fina e interacção limitada, o marketing digital permite segmentar em tempo real, testar criativos, optimizar investimentos e adaptar mensagens a segmentos específicos ou mesmo a indivíduos (Critec, 2026). Plataformas como motores de pesquisa e redes sociais possibilitam que o consumidor procure informação, compare ofertas e responda publicamente a marcas, influenciando outros utilizadores (Redegal, 2024). De acordo com Agarwal, estratégia de marketing digital, “as plataformas digitais transformaram o storytelling de marca numa conversa contínua, em que os consumidores co‑criam significado com as empresas” (Agarwal, 2025).

Fonte: Freepik
Características do Ambiente Digital
As características do ambiente digital explicam a profundidade desta transformação. A interatividade manifesta‑se na capacidade de resposta imediata (comentários, chats, chatbots), na co‑criação de conteúdos (reviews, posts, partilhas) e na adaptação dinâmica de interfaces (Critec, 2026). A personalização resulta do uso intensivo de dados e analítica, permitindo ajustar recomendações, ofertas e mensagens com base em histórico de navegação, compras e preferências declaradas; estudos em marketing digital apontam que experiências personalizadas aumentam significativamente a probabilidade de compra e o envolvimento relacional (Alghamdi et al., 2023). A acessibilidade e o alcance global derivam da ubiquidade de dispositivos móveis e da integração de canais (sites, apps, redes sociais, e‑mail, chatbots), o que torna possível manter contacto com consumidores em diferentes geografias e momentos do dia, através de formatos adequados a cada contexto (Professor Renato, 2025).
Transformação Digital e CRM
Esta nova lógica de relacionamento é reforçada pela transformação digital das organizações e pelos seus sistemas de gestão de relacionamento com clientes (CRM). Investigação recente conclui que a transformação digital pode fortalecer o envolvimento e a lealdade, desde que suportada por práticas transparentes e focadas na criação de valor para o cliente (Alghamdi et al., 2023; Silva et al., 2026). Um estudo sobre transformação digital e CRM destaca que o uso de múltiplos canais digitais coordenados, associado à personalização sustentada por dados, conduz a experiências mais fluídas e à perceção de maior proximidade relacional por parte dos consumidores (Alghamdi et al., 2023). O mesmo trabalho salienta que a gestão de dados, a automatização e a integração de plataformas são pré‑condições para um relacionamento consistente ao longo de todo o percurso do cliente (Alghamdi et al., 2023). Como sintetizam os autores deste estudo, “as tecnologias digitais permitem experiências personalizadas e contínuas em vários pontos de contacto, fortalecendo as relações com os clientes” (Alghamdi et al., 2023).

Fonte: Freepik
Estratégias e Modelos de Planeamento
Do ponto de vista estratégico, a gestão deste relacionamento em contexto digital exige planeamento estruturado. O modelo SOSTAC®, desenvolvido por P. R. Smith e amplamente ensinado em instituições como o Chartered Institute of Marketing, é hoje considerado um referencial para o planeamento de marketing digital, ao organizar o processo em seis etapas: Situation, Objectives, Strategy, Tactics, Action e Control (de Olmo, s.d.; Smith, 2011). Esta abordagem permite alinhar objetivos de relacionamento (como envolvimento, retenção e advocacy) com tácticas específicas de canais digitais, tais como SEO, conteúdos em redes sociais, e‑mail marketing e automação, definindo indicadores de controlo coerentes com a natureza interactiva e mensurável do ambiente online (Marketinet, 2018). Em paralelo, a utilização da Matriz Ansoff em contexto digital ajuda a enquadrar decisões sobre desenvolvimento de mercado e de produto, por exemplo, ao explorar novos segmentos através de canais digitais ou ao criar serviços digitais complementares que aprofundam a relação com clientes existentes (Patel, s.d.; Feedz, 2024).
Integração Omnicanal e Futuro
A integração de canais digitais nos modelos de negócio contemporâneos reforça a centralidade da relação com o cliente como ativo estratégico. Pesquisas recentes em gestão e marketing sublinham que as capacidades digitais, combinadas com a gestão ética de dados e a transparência comunicacional, têm impacto direto na confiança e, consequentemente, na lealdade e retenção (Silva et al., 2026). A automação de marketing, alimentada por inteligência artificial e machine learning, possibilita a orquestração de jornadas omnicanal que mantêm a coerência da comunicação e a relevância das interacções em grande escala, reduzindo custos operacionais e abrindo espaço para propostas de valor mais personalizadas (Critec, 2026). Em síntese, a evolução da internet e a consolidação do marketing digital não apenas multiplicaram os canais disponíveis, como reconfiguraram o próprio conceito de relacionamento de marketing, que passa a ser entendido como um processo dinâmico de cocriação de valor, mediado por dados e tecnologia, mas dependente, em última instância, de confiança e de alinhamento entre expectativas e experiências do consumidor (Redegal, 2024).
Para saber mais: Texto da Janira Sequeira

